Da morte

November 26, 2006

Já sei que no fim me vou sentir deprimida e que virão à tona da memória momentos do passado pouco agradáveis, mas há textos que me levam a reflectir no que de mais certo nos espera quando respiramos pela primeira vez cá fora.

A morte bateu-me à porta quando tinha 13 anos. Até lá, as mortes dos meus avôs paterno e materno não foram conscientemente vividas. Não me lembro de ter sofrido, como supostamente todos nós devemos sofrer quando morre um familiar. A morte bateu-me à porta quando a mãe da minha melhor amiga, a São, faleceu, tinha esta também 13 anos. Não se vive a morte dos outros, mas sofre-se profundamente com os amigos, como foi o caso.

A morte voltou a bater-me à porta há três anos e meio, com o desaparecimento da minha própria mãe. Chorei, berrei, amaldiçoei um suposto Criador omnisciente e omnipresente e inantingível e invisível e cruel, senti um vazio como nunca antes tinha sentido. E nunca mais os natais foram os mesmos. Por muito que finja, o nó na garganta teima em não me deixar.

Desde essa altura que a morte tem, com demasiada frequência, invadido a minha mente: a minha própria morte, a dos que estão mais próximos de mim, a daqueles que mais amo. Tenho medo da morte, tenho medo de saber que vou morrer, tenho medo de mortes estúpidas como a da mãe da minha amiga, tenho medo de mortes lentas como a da minha mãe. Não gosto de ter consciência de que com a minha morte, não verei outros crescer e viver plenamente.

Tenho para mim que a morte física é o fim de tudo: coloca-se um corpo numa caixa de madeira que acaba debaixo da terra. Ou crema-se. E acabou. Não há mais nada. Haver há, mas só para quem fica: as lamúrias, as saudades, as boas recordações, as imagens que criámos da pessoa defunta.

Da minha mãe, também recordo um corpo decrépito que em nada correspondia à sua idade e à sua força gigantesca de viver, uma mente que, antes de atingir a fase terminal, funcionava a 200 à hora, uma pessoa frenética, lutadora, quase sempre incansável, com objectivos que raríssimas vezes não alcançou. A sua própria mãe conseguiu vencer uma batalha contra a morte, a minha mãe não conseguiu vencer a dela.

Se há algo para lá da morte, só o vou saber uma vez. Mas até lá, há que aproveitar bem e dizer muitas vezes a quem mais se estima as palavras que nunca disse à minha mãe!

7 Responses to “Da morte”

  1. Robino said

    É isso. E depois, não há nada que o tempo não resolva, a não ser a própria morte. De qualq
    Um beijo grande.

  2. Robino said

    …de qualquer modo, quem quer viver para sempre?

  3. rick said

    O «para lá da morte» não passa de um bálsamo para a dor da perda e do inconformismo (e, vá lá, falta de humildade) em aceitar-nos tal como somos: matéria orgânica à espera de se transformar em estrume. Muito pouco diferentes de uma vaca, uma melga ou de um cepo apodrecido de uma outrora frondosa árvore.

    É aproveitar enquanto cá andamos e fazer por deixar (se estivermos para aí virados) uma boa recordação aos que cá ficam.

  4. A morte é o fim de tudo para ti e o fim de nada para muitos. Se é o fim de tudo, sorte a tua que tiveste esse tudo. E nesse tudo, muitas coisas não serão perecíveis. Já pensaste que este blog pode sobreviver para além da tua vida?

  5. Helel Ben Shahar said

    Compreendo…

  6. Angela said

    Só hoje regressei a este teu canto… lamento a tua perda e a dor q ainda sentes… acho q uma dor dessas nc desaparece… e fico sem palavras pois tb eu n sei lidar c a morte… Sorri com as recordações que tens e vive ao máximo a tua vida.

  7. Jamour said

    Os olhos da morte sao incolores, insensiveis, repletos de vazio sentido, e olham-te como se fosses feito de cinza que o vento levanta.

Leave a Reply