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Teste 1,2, 3

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Isto ainda funciona?

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Dejá vù

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Depois de ler algo algures, decidi dar o braço a torcer e pôr parcialmente em prática o que vinha sugerido e também aceitar a crítica/sugestão que outro alguém me fez aquando da escrita e publicação disto noutro lado qualquer. Sendo assim, aqui se segue algo que já tem cerca de 3 meses de idade.

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E agora?

Que inferno! As mudanças nunca mais acabavam! Deveria ter pensado duas vezes quando considerou a hipótese de se mudar para um apartamento mais pequeno. Tudo o que lhe pertencia e que anteriormente cabia num T4 estava agora encaixotado e etiquetado de acordo com tamanho, volume, tipo e utilidade. Nunca mais se veria livre de tal tarefa dantesca. Ainda mais que arrumações não eram consigo. Uma característica perfeitamente notória ao longo de todo o ano, em que permitia que papéis, revistas, notificações, coisas velhas se amontoassem no seu escritório e decorassem não só o parapeito da janela como parte do chão. Consolava-lhe a ideia de que a mudança seria sempre para melhor, como diziam as vozes populares. Em termos monetários, iria poupar umas coroas. Em termos pessoais, iria usufruir da solidão a que tinha direito quando muito bem lhe aprouvesse. Em termos sociais, iria ser uma pessoa bem mais selectiva do que tinha sido até ali. As multidões tornaram-se asfixiantes. Evitava a todo o custo ir a lugares que sabia serem bastante populados e populares. No seu tempo de lazer, saía para levar a cabo o que realmente lhe dava prazer: correr, correr e perder a noção do tempo, correr, perder a noção do tempo e cansar-se até à exaustão. Tornou-se com o decorrer do tempo e as partidas da vida uma pessoa solitária, que apreciava o seu canto, que se apreciava plenamente e era feliz assim. Não se considerava do género “eremita”: não lhe era doloroso vestir a pele de pessoa extrovertida e conviver com alguns dos seus familiares naqueles dias marcados pelo calendário social. Bem pelo contrário, esta dualidade na sua personalidade era o que ainda lhe permitia manter um certo equilíbrio interior. No seu dia-a-dia, era, pensava sobre si, uma pessoa perfeitamente normal e ordinária, que não se destacava em nada de todos os outros cordeirinhos. Conseguia trabalhar em grupo, fazer parte de equipas, incentivar os outros a darem o seu melhor, contar piadas, partilhar alguns, poucos, aspectos da sua vida pessoal. Gostava de si assim.

E gostava principalmente de ter mudado de ares.

As noites

À noite apreciava imenso sentar-se em frente ao Atlântico, sem pensar em grandes preocupações, só a viajar mentalmente ou a deixar o seu corpo relaxar estendido na rede brasileira que milagrosamente tinha conseguido pendurar na sua ínfima varanda da sala. O mar fazia-lhe falta. O vento e o barulho das ondas, lá ao longe, embalavam-na e levavam-na e escrevinhar o turbilhão de imagens e ideias que a assolavam durante as longas noites. Se por vezes apenas rabiscava umas imagens aparentemente sem sentido para um qualquer estranho, outras vezes, deliberadamente, desenhava formas humanas, caras expressivas, pares de pessoas, quase sempre a sorrir, em harmonia. Havia noites de verão em que gostava de fazer um exercício de palavras tão infantil que quase sentia vergonha de si própria por ainda revelar tais hábitos de criança: o encadeamento e associação de palavras que só para ela faziam sentido. Ultimamente, estas associações resultavam numa corrente algo mórbida e deprimente. Tinha perfeita consciência de tal. Mas tal havia de mudar. Há que dar tempo ao tempo. O último inverno, o seu primeiro passado naquele cantinho, foi extremamente penoso. A própria estação do ano já é por si só, na sua opinião, a mais triste das quatro, aquela época em que as pessoas se poderiam sentir mais sozinhas no meio da multidão. Era o seu caso. O acidente mortal, inesperado como qualquer acidente de viação, naquela terceira noite do mês de Janeiro, seguido de umas miniférias de duas semanas no hospital local, obrigaram-na a repensar a sua passagem efémera. O que antes se afigurava como garantido, como rotineiro, como constante do seu dia-a-dia, não o era mais. E tudo por culpa de um condutor, se é que se podia chamar alguém sem carta de condução de tal, que “só queria ir dar uma voltinha ao bairro para experimentar o carro novo do meu pai”. Nunca se irá esquecer da pancada estrondosa que sentiu do seu lado direito quando passavam por um cruzamento situado na avenida que corria paralelamente ao mar. Avenida essa habitualmente percorrida a pé, a dois, ao final do dia ou após o jantar. Naquele dia, durante o qual tinham constantemente trocado mensagens via telemóvel, tinham combinado uma noite especial, totalmente pensada por ela. Seria uma surpresa parcialmente conhecida por ele. E de facto, foi especial, horrivelmente especial, tão especial que se tornou inapagável da sua memória. Durante longos segundos perdeu noção de onde estavam, onde iam, porque estavam elegantemente vestidos, do que lhes tinha acontecido. Até que olhou para o seu lado esquerdo e viu-o, ensanguentado, o pescoço numa posição bastante estranha, os olhos semi-abertos. Sentiu-lhe a respiração, o pulso. Sabia o que procurar. O curso de primeiros socorros, frequentado por insistência do seu pai, enfermeiro, era-lhe agora ironicamente útil. Nada, não sentia nada. Apenas via o sangue a descer lentamente pela cabeça dele. Queria esquecer tudo, claro que só podia ser um sonho!

Mas não! Tinha sido bem real. As cicatrizes ao longo do lado direito do seu corpo e até nas costas eram a prova mais visível de que a morte a tinha rondado. Mas ainda não tinha chegado a sua vez. Não naquele dia. Não para si. Mas mais valia, pensou posteriormente.

Aurora premonitória

Hoje ia ser um dia diferente, ela sentia-o. Tinha acordado mais cedo, inclusive sem necessidade de despertador, o que não era habitual. Sentia-se bem, forte, determinada, sorridente, com vontade de enfrentar o mundo de alma e cara lavadas. A manhã, ainda orvalhada mas já evidenciando um dia luminoso e ameno, só podia ser um bom prenúncio. E com um dia assim, há que o aproveitar da melhor maneira, de máquina fotográfica em redor do pescoço e toca a dar ao dedinho, pensou ela. O duche matinal foi substituído por um longo banho de imersão. Só não voltou a adormecer porque a música de fundo seleccionada era demasiado … sonora. Mas não tão barulhenta que pudesse incomodar os seus vizinhos. O violino electrónico da Vanessa Mae incutia-lhe ritmo, energia, vontade de acelerar, de dançar, de sapatear enquanto preparava o seu pequeno-almoço…Não, hoje não ficaria em casa a tomar o seu pão seco, torrado, do dia anterior e a ver as notícias da manhã. Sem se preocupar em arrumar o que já tinha desarrumado, arranjou-se, colocou a máquina dentro da mochila, saltou para dentro dos seus ténis velhos e algo mal cheirosos e saiu porta fora, com um ar confiante. Nas escadas cruzou-se com a Dª Albertina que já regressava a casa vinda da padaria. Deu-lhe os “bons dias” em tom cantado e com um sorriso franco. O aroma a pão quente acabado de sair do forno aumentou-lhe o apetite e recordou-a que, na véspera, o seu jantar tinha sido apenas uma taça de cereais em frente a uma televisão deplorável. É o que dá não ter horas para sair do escritório. Sai-se quando o trabalho acaba, não quando o relógio manda. Como o trabalho parecia nunca acabar, ontem saiu a horas indecentemente tardias, depois de o guarda-nocturno ter feito a sua primeira ronda ao edifício. A Dª Albertina foi a primeira pessoa com quem tomou conhecimento quando decidiu mudar-se para aquele prédio. Uma senhora distinta, com cabelos brancos que impunham respeito, sempre vestida com bom gosto, sempre maquilhada e perfumada, sempre pronta para qualquer ocasião. Fazia-a lembrar a sua avó materna. A Dª Albertina era uma pessoa interessantíssima que sabia contar histórias, que sabia encantar quem a escutasse. Já tinham passado alguns serões juntas e sempre se sentiu bem acolhida por esta senhora que emanava elegância, confiança e sabedoria, próprias duma pessoa que soube viver a vida e respeitar os outros. Como a invejava! Mas hoje não ia deixar-se levar por estes pensamentos deprimentes, Hoje tinha outros planos e nada nem ninguém iriam interferir. Na padaria, onde ainda não era considerada cliente habitual, sentiu o olhar inquisidor do dono, como que a perguntar “o que é que lhe deu para vir cá hoje e tão cedo?”. “Pois bem, nem o teu sorriso mais simpático me vai fazer falar e contar-te os meus porquês”, pensou ela. Já numa mesa a um canto, deu uma vista de olhos pelos jornais diários. Começou, como sempre fazia desde que o acidente ocorreu, pelo obituário – ninguém que conhecesse – e ia lendo as letras gordas, os títulos, das últimas para as páginas iniciais. Não estava com paciência para leituras demoradas. Sentia-se excitada, a fervilhar por dentro. Não sabia muito bem porquê, mas gostava desta sensação. Saber que a sua preciosa máquina fotográfica iria daqui a pouco recomeçar a registar aqueles detalhes tão óbvios para o mais comum dos mortais, mas tão escondidos para a maioria dos transeuntes que passavam sem ver, acalentava-lhe ainda mais a esperança de um dia fantástico. Sentia que hoje iria recuperar um dos seus velhos hábitos que tanto prazer lhe tinha dado no passado. Tinha neste momento a oportunidade de escolher por onde queria começar. Decidiu-se pela Avenida do Mar, que sabia que terminava na zona degradada da cidade onde ainda habitavam alguns pescadores e as suas numerosas famílias. Tinha esperança de poder encontrar aquele que a retirou do carro acidentado, aquele que não teve nojo de tocar na sua pele naturalmente escura, aquele que não olhou para o lado perante duas pessoas pretas a precisarem urgentemente de ajuda médica.